.: Quando descobri ser HIV positivo...

Quando descobri ser HIV positivo, talvez como sopro de esperança, psicólogos e médico diziam da perspectiva de termos a cura para a AIDS até 2005. Aqui estou, há quase 20 anos, vivendo com o HIV e ainda a cura não veio e nem mesmo se apresenta com horizonte de esperança. É fato que, neste tempo, muito a ciência evoluiu e temos medicamentos cada vez mais potentes e cada vez mais as pessoas tem melhor qualidade de vida vivendo com HIV/Aids, mas a cura ainda não veio. Na década de 90 lutamos arduamente contra a “peste gay” e mostramos para o mundo modelo de organização social, de força e determinação conseguindo para um País de em desenvolvimento o que não se imaginava; o tratamento antiretroviral universal e gratuito. Hoje sofremos a ameaça do desabastecimento, que para mim soa de forma absurda, visto que o Brasil se tornou excelência em tratamento e prevenção ao HIV/Aids. Excelência que se fragmenta numa política descentralizadora, que dá aos Municípios e Estados o que eles não conseguem cuidar. Excelência que defende pelo próprio Diretório Nacional, mas que desconsidera a assistência em detrimento da qualidade de vida das pessoas que vivem com Aids. E então questiono se não esqueceram dos instrumentos oficiais de análise que demonstram a pauperização da Aids, sim, pauperização para mim e quase todos não tem outro significado senão a da pobreza, da ausência do básico e quase sempre da miséria, lugar onde a fome impede o uso dos antiretrovirais, lugar vazio de esperança e perspectivas. E deste lugar questiono políticas que ditam novas posturas que desprezam o cuidado e a assistência àqueles que sofrem na pobreza e precisam se tratar.

Na semana passada fui a um centro de referência em vacinação da Capital e me assustei com a precariedade do atendimento, me assustei com o médico me perguntando “onde peguei isso ai...” Também me assustei com um morador de rua,  antes trabalhador braçal e agora morador de rua, que depois de várias tentativas de conseguir um benefício do INSS deixou a perna debaixo da roda do ônibus e agora é assistido, mas paraplégico. Sei muito bem  que as políticas sociais evoluíram muito no nosso pais, mas o que ainda não sei com certeza é que se as políticas de assistência e prevenção evoluíram juntas. E no final deste breve texto não vou perguntar sobre novos prazos para a cura, pergunto sim se o Departamento Nacional já não está com o prazo mais que vencido para repensar sua política de Assistência e Prevenção.

 

Valdecir Fernandes Buzon

Presidente do Grupo VHIVER